19 de março de 2011

Negócios para a base da pirâmide: como encarar o papel do governo

Alguns dos principais modelos de negócios inclusivos discutidos nesse blog costumam ser fortemente afetados pelo papel do governo. Embora seja verdade que a influência do governo se estende para quase todos os tipos de atividade econômica, na base da pirâmide essa influência é muito mais marcante. Por exemplo, o governo no Brasil oferece de forma gratuita ou subsidiada diversos serviços supostamente “universais” como ensino fundamental, saúde básica, saneamento, gás de cozinha, e energia elétrica. O governo também oferece de forma parcial, subsídios ou produtos gratuitos nas áreas de habitação popular, ensino infantil, médio e universitário, internet, livros didáticos, alimentos, micro-crédito e remédios. Finalmente, o governo transfere renda diretamente para os mais pobres através da aposentadoria (subsidiada) e de programas como o Bolsa Família.

Tudo isso significa que aqueles que pretendem oferecer produtos e serviços para a base da pirâmide vão ter que, querendo ou não, considerar seriamente o impacto do governo para seus projetos. A influência do governo se dá de duas formas principais. Por um lado, o estado atua como provedor direto dos serviços. Essa oferta gratuita de serviços, no que pese o seu mérito de atender milhões de pessoas que não podem pagar, pode contribuir para inibir ou tornar determinados mercados privados inviáveis. Por exemplo: para um empreendedor do setor educacional tal presença coloca problemas cruciais: existe de fato um mercado privado razoável para escolas de ensino fundamental (com um mínimo padrão de qualidade) voltada para crianças das classes C e D? Quantas famílias estão realmente dispostas a pagar por esse serviço na presença do enorme sistema público gratuito?

Por outro lado, o setor público afeta de modo direto o mundo dos negócios inclusivos através do sistema regulatório. Se o campo regulatório (incluindo a nossa complexa estrutura tributária) já é um estorvo importante para quase todas as empresas que atuam no Brasil, na área dos negócios inclusivos esse estorvo pode ganhar tons dramáticos. Afinal, as empresas que atuam na base da pirâmide precisam trabalhar, em geral, com margens unitárias mais baixas e buscar obter ganhos de escala. Por exemplo, como acomodar a estrutura de custos de um micro-seguro que se pretenda vender a seis reais, se existe a exigência legal de que a cobrança se faça por boleto bancário, a um custo de quase dois reais por boleto?

Infelizmente, em áreas como produtos médicos, nutrição e serviços financeiros a estrutura regulatória brasileira chega a ser digna de Kafka, com permanente alteração nas regras do jogo, grandes atrasos na aprovação de produtos e projetos e frequentes ações arbitrárias por parte das autoridades que controlam o setor. Tudo isso aumenta o custo de fazer negócios, inibe a iniciativa dos empreendedores e desestimula o processo de inovação.

Fazer negócios com e para os mais pobre não é apenas - como muitos pensam - uma forma de exploração. Para construirmos um diálogo frutífero, os gestores públicos precisam começar a entender que essa nova modalidade de negócios pode sim contribuir para a inclusão social e para a melhoria da qualidade de vida dos mais pobres, embora nunca vá ser uma solução para todos os problemas nem possa substituir o Estado. Os empreendedores, do seu lado, precisam também ir a luta e mostrar a contribuição real e concreta que podem oferecer.

Por Haroldo Torres

Um comentário:

  1. ola muito show seu blog muito leve bom de ser ver e ler eu ja passei a ser seu seguidor se quiser seguir o meu agradeço
    abraços e muito sucesso na vida
    http://audienciadatvrealtimes.blogspot.com/

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